Gastroenterologia
Azia frequente, regurgitação, tosse ou rouquidão persistente podem ser sinais da Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE). Entenda as causas, o diagnóstico e as opções de tratamento.
O refluxo gastroesofágico ocorre quando o conteúdo do estômago retorna para o esôfago, causando sintomas incômodos como azia e regurgitação.
Refluxo ocasional é normal e pode ocorrer em pessoas saudáveis. O problema surge quando passa a causar sintomas frequentes, impacta a qualidade de vida ou provoca lesões no esôfago — nesse caso, chamamos de Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE).
Normalmente, existe uma válvula entre o esôfago e o estômago — o esfíncter inferior do esôfago — que impede o retorno do conteúdo gástrico. Na DRGE, essa barreira torna-se menos eficiente, permitindo que ácido, alimentos e secreções do estômago retornem para o esôfago, provocando sintomas e, em alguns casos, lesões.
Os sintomas mais típicos são:
Além disso, alguns pacientes podem apresentar sintomas atípicos:
O refluxo pode ocorrer por diversos fatores:
O excesso de gordura abdominal aumenta a pressão dentro do abdome, favorecendo o retorno do conteúdo gástrico para o esôfago.
Alterações hormonais e o aumento da pressão abdominal durante a gestação favorecem o aparecimento de refluxo e azia.
Enfraquece a barreira natural entre o esôfago e o estômago. Hérnias maiores costumam causar sintomas mais intensos e maior risco de esofagite.
O cigarro reduz a pressão do esfíncter inferior do esôfago e diminui mecanismos naturais de proteção contra o ácido.
Alguns medicamentos também podem favorecer o refluxo ao relaxar o esfíncter inferior do esôfago ou retardar o esvaziamento gástrico, como bloqueadores dos canais de cálcio, nitratos, alguns antidepressivos e medicamentos para asma.
As recomendações atuais enfatizam mais a identificação dos gatilhos individuais do que listas universais de alimentos proibidos. Nem todos os pacientes reagem da mesma forma aos mesmos alimentos.
Em casos de sintomas típicos (azia e regurgitação) sem sinais de alarme, o diagnóstico pode ser realizado pela avaliação clínica. Pode ser realizado um teste terapêutico com inibidores de bomba de prótons (IBP) por 4 a 8 semanas — a melhora dos sintomas reforça o diagnóstico.
Em alguns casos, podem ser solicitados exames complementares:
A endoscopia costuma ser indicada quando existem sinais de alarme:
Devido à disponibilidade e fácil acesso ao exame, muitas vezes a endoscopia é solicitada como primeiro passo na avaliação, permitindo diagnósticos diferenciais e avaliação de complicações como estenoses, úlceras e Esôfago de Barrett.
A maioria dos pacientes (60–70%) com refluxo apresenta endoscopia normal — também chamada de doença do refluxo não erosiva. O paciente tem sintomas de azia e regurgitação, mas a endoscopia não mostra erosões ou inflamação no esôfago.
Nesses casos, podem ser necessários exames funcionais — pHmetria e impedâncio-pHmetria — que demonstram a exposição ácida anormal no esôfago.
O tratamento depende da intensidade dos sintomas e pode incluir mudanças de estilo de vida, medicamentos e, em casos selecionados, cirurgia.
Os medicamentos mais utilizados reduzem a produção de ácido pelo estômago, permitindo cicatrização do esôfago e alívio dos sintomas. Entre eles estão os inibidores da bomba de prótons (IBP):
Atualmente, contamos também com o vonoprazana (Inzelm®), que promove inibição ácida rápida e potente. Antiácidos e alginatos podem ser úteis para alívio rápido dos sintomas.
Em casos selecionados, a cirurgia antirrefluxo pode ser indicada, principalmente quando há hérnia de hiato significativa associada.
O refluxo em si não causa câncer diretamente. No entanto, pacientes com refluxo crônico podem desenvolver Esôfago de Barrett — uma alteração da mucosa do esôfago causada pela exposição prolongada ao ácido.
O Esôfago de Barrett aumenta o risco de adenocarcinoma do esôfago e requer acompanhamento especializado com endoscopias periódicas. O diagnóstico é feito pela endoscopia com biópsia.
Dúvidas frequentes
Muitos pacientes conseguem controle completo dos sintomas com tratamento adequado — mudanças de estilo de vida e medicamentos. Alguns necessitam de tratamento prolongado, especialmente em casos de esofagite grave ou Esôfago de Barrett. A necessidade e duração do tratamento devem ser avaliadas individualmente pelo gastroenterologista.
Em alguns pacientes, sim. Os inibidores de bomba de prótons (IBP) são considerados seguros para uso prolongado, mas a necessidade deve ser reavaliada periodicamente. O objetivo é sempre usar a menor dose eficaz e, quando possível, tentar retirar gradualmente com acompanhamento médico.
Nem sempre. Algumas pessoas são sensíveis ao café e percebem piora dos sintomas; outras não apresentam nenhum impacto. As recomendações atuais focam na identificação dos gatilhos individuais. Se você perceber que o café piora seus sintomas, vale reduzir o consumo ou trocar o horário.
Sim. Tosse crônica, pigarro frequente e rouquidão são sintomas atípicos do refluxo, conhecidos como manifestações extraesofágicas da DRGE. São causados pelo contato do ácido com a laringe e as vias aéreas. Muitos pacientes com esses sintomas nem apresentam azia, o que pode atrasar o diagnóstico.
É uma alteração na mucosa do esôfago causada pela exposição crônica ao ácido gástrico. As células normais do esôfago são substituídas por um tipo de célula mais resistente ao ácido, mas com maior risco de transformação maligna. O diagnóstico é feito pela endoscopia com biópsia, e o acompanhamento é feito com endoscopias periódicas.
Não necessariamente. Em casos de sintomas típicos sem sinais de alarme, o diagnóstico pode ser feito clinicamente. A endoscopia é indicada quando há sinais de alerta (dificuldade para engolir, perda de peso, anemia, sangramento), quando os sintomas persistem apesar do tratamento ou quando se quer avaliar complicações como Esôfago de Barrett.
Os inibidores de bomba de prótons (IBP) como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol são considerados seguros para uso prolongado. Em pacientes com DRGE grave, Esôfago de Barrett ou esofagite recorrente, o uso contínuo pode ser necessário e é clinicamente justificado. O objetivo é sempre usar a menor dose eficaz. O uso prolongado sem indicação precisa ou sem reavaliação periódica deve ser evitado — converse com seu gastroenterologista para revisar a necessidade do medicamento regularmente.
Sim. A dor torácica de origem esofágica pode ser muito semelhante à dor cardíaca — em intensidade, localização e irradiação. Isso faz com que o refluxo seja uma das causas mais comuns de "dor no peito não cardíaca". Diante de qualquer dor no peito intensa, súbita ou acompanhada de falta de ar, sudorese ou irradiação para o braço esquerdo, é fundamental descartar primeiramente causas cardíacas — procure uma emergência. Após excluir o coração, a investigação de causa esofágica com endoscopia e pHmetria é o próximo passo.
Sim, o refluxo é muito comum durante a gestação — afeta até 80% das grávidas em algum grau, principalmente no segundo e terceiro trimestres. As causas são o relaxamento do esfíncter inferior do esôfago por ação hormonal e o aumento da pressão abdominal pelo útero crescendo. O tratamento começa por medidas comportamentais: refeições menores e mais frequentes, evitar deitar logo após comer e elevar a cabeceira. Antiácidos e alginatos são geralmente seguros na gestação. O uso de IBPs deve ser avaliado individualmente pelo obstetra e gastroenterologista.
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