Gastroenterologia
A gastrite é uma das condições digestivas mais comuns — mas também uma das mais mal compreendidas. Nem todo sintoma no estômago é gastrite, e nem toda gastrite precisa de tratamento.
Gastrite é a inflamação da mucosa — o revestimento interno — do estômago. Ela pode ser aguda ou crônica e apresentar diferentes causas, como infecção pela bactéria Helicobacter pylori (H. pylori), uso de anti-inflamatórios, consumo excessivo de álcool, doenças autoimunes e outras condições menos frequentes.
Importante: nem toda gastrite causa sintomas, e nem todo sintoma digestivo significa que existe gastrite. Muitas pessoas têm sintomas sem gastrite — e gastrite sem sintomas. A avaliação médica é fundamental para o diagnóstico correto.
Quando presentes, os sintomas da gastrite podem incluir:
Muitas pessoas apresentam gastrite na endoscopia sem qualquer sintoma. Da mesma forma, pacientes com sintomas digestivos intensos podem ter endoscopia normal — e sofrer de condições como dispepsia funcional, que requer abordagem diferente.
A infecção pelo H. pylori é uma das causas mais importantes de gastrite crônica no mundo. Está associada não apenas à gastrite, mas também a úlceras gástricas, linfoma MALT e aumento do risco de câncer gástrico — por isso, quando identificada, geralmente deve ser tratada.
Medicamentos como ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno e cetoprofeno podem lesar a mucosa do estômago e causar gastrite ou úlceras, especialmente com uso frequente ou prolongado.
O próprio sistema imunológico agride as células do estômago. Pode estar associada à deficiência de vitamina B12, anemia perniciosa e aumento do risco de algumas complicações gástricas a longo prazo.
Álcool em excesso, refluxo biliar, estresse físico intenso (internações graves, cirurgias, queimaduras), algumas infecções e doenças inflamatórias também podem causar gastrite.
Nem toda gastrite precisa de tratamento. A decisão é sempre individualizada após avaliação médica — o objetivo é tratar a causa identificada, suspender fatores agressores à mucosa, promover cicatrização e controlar os sintomas.
Omeprazol, pantoprazol, esomeprazol e similares reduzem a produção de ácido e favorecem a cicatrização da mucosa gástrica. São os medicamentos mais utilizados no tratamento da gastrite.
Classe mais moderna que inclui o vonoprazana (Inzelm®) e o fexuprazan. Oferecem inibição ácida reversível com ação mais rápida e prolongada em relação aos IBPs convencionais.
Famotidina (Famox®) e cimetidina (Tagamet®) reduzem a secreção de ácido. Seu uso diminuiu após o surgimento dos IBPs e P-CABs, mas ainda têm indicações específicas.
Medicamentos como o sucralfato reforçam os mecanismos naturais de defesa do estômago, estimulando a produção de muco e bicarbonato. São usados especialmente em lesões causadas por AINEs e em combinação com outros medicamentos.
Quando a bactéria é identificada, recomenda-se tratamento específico com associação de medicamentos (antibióticos + IBP). Após o tratamento, é necessário confirmar a erradicação por exame específico.
Sim — alguns tipos de gastrite podem evoluir para úlcera, mas a maioria dos casos leves não progride dessa forma. Entenda a diferença:
Inflamação da mucosa (revestimento) do estômago — sem necessariamente comprometer camadas mais profundas.
Uma "ferida" que atravessa a mucosa e atinge camadas mais profundas da parede do estômago ou duodeno.
As gastrites com maior risco de evolução para úlcera são as causadas por infecção por H. pylori e por uso de anti-inflamatórios. A associação dos dois fatores eleva ainda mais esse risco.
"Gastrite" é um diagnóstico histológico — feito pela biópsia, não apenas pela imagem. O termo usado nos laudos de endoscopia não deve ser avaliado isoladamente. Muitas vezes os sintomas são causados por dispepsia funcional, não pela inflamação em si. O mais importante é avaliar os sintomas e investigar os fatores de risco.
Depende da causa e do tipo. A gastrite associada ao H. pylori pode levar, ao longo dos anos, a uma sequência de alterações — atrofia gástrica, metaplasia intestinal e displasia — que aumentam progressivamente o risco de câncer gástrico. Por isso, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são importantes.
A evolução para câncer, porém, depende de múltiplos fatores: hábitos alimentares, tabagismo, consumo de álcool, predisposição genética e questões metabólicas. O H. pylori é o principal fator de risco, mas isoladamente raramente determina o surgimento do câncer.
A avaliação especializada é recomendada quando houver:
Vômito com sangue, fezes pretas e pastosas (melena), dor abdominal intensa e súbita ou tontura com queda de pressão exigem avaliação médica urgente — podem indicar sangramento digestivo ativo.
Dúvidas frequentes
Depende da causa. Quando a gastrite é provocada por H. pylori, o tratamento com antibióticos específicos pode erradicar a bactéria e resolver a inflamação definitivamente — nesses casos, considera-se que há cura. Quando causada por uso de anti-inflamatórios, suspender o medicamento e tratar a mucosa costuma resolver o quadro. Gastrites autoimunes não têm cura, mas têm acompanhamento e tratamento para as complicações.
Sim. O H. pylori é uma bactéria que pode ser transmitida pela via fecal-oral ou oral-oral, geralmente em condições de higiene precárias ou por contato com água ou alimentos contaminados. A transmissão familiar é comum. Por isso, em alguns casos, o médico pode avaliar a necessidade de testar familiares próximos.
O uso de anti-inflamatórios (ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno e outros) deve ser feito com cautela em quem tem gastrite, especialmente se não associado a um protetor gástrico. Em alguns casos o médico pode recomendar evitá-los completamente. Sempre informe seu gastroenterologista sobre todos os medicamentos que utiliza, incluindo os de uso eventual.
O estresse emocional cotidiano não causa gastrite diretamente — mas pode piorar sintomas digestivos em pessoas com gastrite ou dispepsia funcional. O estresse físico intenso (como em internações graves, cirurgias de grande porte ou queimaduras extensas) é uma causa conhecida de gastrite aguda nesse contexto específico. No dia a dia, o que o estresse tende a fazer é amplificar a percepção dos sintomas.
Nem sempre. Em pacientes jovens com sintomas típicos e sem sinais de alerta, o médico pode optar por tratar empiricamente sem solicitar endoscopia imediatamente. A endoscopia com biópsia é indicada quando há sinais de alerta (perda de peso, dificuldade para engolir, sangramento), falha do tratamento inicial, suspeita de H. pylori para confirmação histológica, ou em pacientes acima de 40–45 anos com sintomas novos.
A dieta pode influenciar os sintomas, mas raramente é a causa da gastrite em si. Alimentos muito gordurosos, condimentados, ácidos ou o consumo de álcool e café em excesso podem irritar a mucosa já inflamada e piorar os sintomas — mas geralmente não provocam gastrite do zero. O mais importante é tratar a causa subjacente. Restrições alimentares desnecessárias devem ser evitadas para não comprometer a qualidade de vida.
Não. São condições distintas, embora possam coexistir e ter sintomas parecidos. A gastrite é uma inflamação da mucosa do estômago. O refluxo gastroesofágico (DRGE) ocorre quando o conteúdo ácido do estômago retorna para o esôfago. Os sintomas se sobrepõem — queimação, desconforto abdominal, pirose — mas o diagnóstico e o tratamento podem ser diferentes. A endoscopia digestiva alta ajuda a diferenciar as duas condições.
A gastrite atrófica é um tipo de gastrite crônica em que ocorre perda progressiva das células normais do estômago, sendo substituídas por tecido fibroso ou por células de características intestinais (metaplasia intestinal). Esse processo pode aumentar o risco de câncer gástrico a longo prazo, especialmente quando associado ao H. pylori. Por isso, pacientes com gastrite atrófica precisam de acompanhamento regular com endoscopia e biópsia, conforme orientação do gastroenterologista.
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