O que é diverticulite?

A diverticulite ocorre quando os divertículos — pequenas bolsas que podem se formar na parede do intestino grosso — ficam inflamados ou infectados. Os sintomas mais comuns incluem dor abdominal aguda ou subaguda (geralmente no lado inferior esquerdo), febre, alteração do hábito intestinal e náuseas.

Após um episódio de diverticulite, uma das maiores preocupações dos pacientes é justamente evitar novas crises. E é aí que entra o mito das sementes.

Os fatores de risco que realmente importam

E as sementes? O mito e a ciência

Crença antiga

Acreditava-se que sementes, nozes e alimentos de alto resíduo obstruíam mecanicamente os divertículos, causando trauma, isquemia e infecção. Por décadas, a orientação padrão foi restringir esses alimentos.

O que a ciência diz hoje

Estudos científicos recentes desmistificaram completamente essa crença. O consumo de nozes, sementes, milho, pipoca e frutas com sementes pequenas (como morango e mirtilo) não aumenta o risco de diverticulite.

Ao contrário — novos estudos indicam que o consumo de nozes, sementes e pipoca pode estar associado a um risco reduzido de desenvolver diverticulite. Pacientes com doença diverticular não precisam evitar esses alimentos por medo de desencadear novas crises.

"Mais importante do que evitar um alimento específico é adotar um estilo de vida saudável que contribua para a saúde intestinal como um todo."

Como prevenir novas crises?

A adesão a um conjunto de hábitos saudáveis pode reduzir o risco de diverticulite em quase 75% — e potencialmente prevenir metade de todos os casos da doença.

1. Alimentação

Aumente as fibras

Recomenda-se pelo menos 23 gramas de fibras por dia. Uma dieta rica em fibras — especialmente de frutas, cereais integrais e leguminosas — atua de forma protetora contra a doença.

Reduza a carne vermelha

Menos de 4 porções por semana. Substituir carne vermelha por aves ou peixe reduz o risco de diverticulite em cerca de 20%. Evite também dietas ricas em gorduras totais, grãos refinados e açúcares.

Coma sementes

Sem restrição — o consumo é seguro e possivelmente protetor. O mito de que causam diverticulite foi completamente descartado pela evidência científica atual.

Hidrate-se bem

Uma ingestão adequada de líquidos é fundamental para o bom funcionamento intestinal e para o aproveitamento das fibras da dieta.

2. Estilo de vida

3. Atenção aos medicamentos

Importante

Evite o uso regular (duas ou mais vezes por semana) de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) como ibuprofeno e diclofenaco — eles aumentam substancialmente o risco. A única exceção é a aspirina prescrita para prevenção cardiovascular. Opioides e corticosteroides também devem ser monitorados com seu médico.

4. Vitamina D

Manter bons níveis de vitamina D no sangue ajuda a proteger contra a doença diverticular. Vale conversar com seu médico sobre a dosagem e, se necessário, a reposição.

Para quem já teve diverticulite: o que previne recorrências?

Além das modificações de dieta e estilo de vida, é importante saber que não existem evidências de que o uso de probióticos, rifaximina ou mesalazina previna o retorno da diverticulite.

A cirurgia eletiva para remoção de parte do intestino também não deve ser indicada apenas com base no número de crises anteriores — deve ser uma decisão individualizada, considerando a gravidade dos episódios e o impacto na qualidade de vida.

Em resumo: se você tem divertículos ou já teve diverticulite, provavelmente não precisa abrir mão de sementes, castanhas ou pipoca. O foco deve estar nos hábitos que realmente fazem diferença — alimentação rica em fibras, atividade física regular, controle do peso e abandono do tabagismo.

Dra. Marcela Paes Terra

Dra. Marcela Paes Terra

Gastroenterologista e endoscopista com formação pelo Hospital das Clínicas da FMUSP. Especialista em doenças do aparelho digestivo, endoscopia diagnóstica e terapêutica. Atende em São Paulo (Vila Madalena e Bela Vista).