Gastroenterologia

Constipação Intestinal: causas, diagnóstico e tratamento

A prisão de ventre é muito mais do que evacuar poucos dias por semana — e, felizmente, na grande maioria dos casos tem tratamento eficaz.

O que é constipação intestinal?

A constipação intestinal, popularmente conhecida como prisão de ventre ou intestino preso, é uma condição muito comum que afeta pessoas de todas as idades.

Embora muitos associem constipação apenas à baixa frequência de evacuações, o diagnóstico inclui também outros sintomas: dificuldade para evacuar, fezes endurecidas, esforço excessivo ou sensação de evacuação incompleta.

Impacto na qualidade de vida: a constipação pode causar desconforto significativo no dia a dia — distensão abdominal, dor, cansaço e interferência nas atividades rotineiras. Na maioria dos casos, tem tratamento eficaz.

Quais são os sintomas?

Alguns pacientes também relatam flatulência, urgência para defecar, dor perianal, alterações no calibre das fezes ou presença de sangue e muco — sintomas que merecem avaliação médica.

Quais são as causas?

A constipação pode ser classificada em duas categorias principais:

Constipação Primária

Sem doença causadora identificada

Inclui a constipação funcional (trânsito normal), o trânsito colônico lento (conteúdo passa devagar pelos intestinos) e a disfunção anorretal — como a dissinergia evacuatória, em que há dificuldade para relaxar os músculos responsáveis pela evacuação.

Constipação Secundária

Consequência de outra condição

Pode ser causada por doenças como hipotireoidismo, diabetes, doenças neurológicas ou anorretais; por medicamentos (antidepressivos, opioides, antiepilépticos, bloqueadores de cálcio); ou por estilo de vida sedentário e dieta pobre em fibras.

Fatores de risco

A Organização Mundial da Saúde aponta como fatores que aumentam a suscetibilidade à constipação:

Quando a constipação merece investigação urgente?

A avaliação médica é especialmente importante na presença de sinais de alerta, que podem indicar doenças mais graves:

Sinais de alerta — procure avaliação
  • Sangramento nas fezes
  • Perda de peso involuntária
  • Anemia
  • Início recente dos sintomas após os 50 anos
  • História familiar de câncer colorretal
  • Mudança importante do hábito intestinal
  • Massas palpáveis no abdome ou no reto

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico baseia-se principalmente na história clínica — avaliação dos medicamentos em uso, hábitos alimentares, presença de sinais de alerta e aplicação de escalas validadas como a Escala de Fezes de Bristol.

Critérios de Roma V

Para constipação primária ou funcional, o diagnóstico segue os critérios internacionais de Roma V:

Critérios de Roma V para Constipação Funcional

  • Esforço excessivo para evacuar
  • Fezes endurecidas ou em "bolinhas" (tipos 1 e 2 da Escala de Bristol)
  • Sensação de esvaziamento incompleto
  • Sensação de obstrução ou bloqueio anorretal
  • Necessidade de manobras manuais para facilitar a evacuação
  • Menos de três evacuações espontâneas por semana

O paciente deve apresentar dois ou mais desses critérios em pelo menos 25% das evacuações, com início dos sintomas há pelo menos 6 meses e ativos nos últimos 3 meses.

Exames complementares

Dependendo do caso, podem ser solicitados:

Como é o tratamento?

O tratamento depende da causa e da intensidade dos sintomas, e segue uma abordagem em etapas:

1
Mudanças no estilo de vida Aumento da ingestão de líquidos, prática regular de atividade física e alimentação mais rica em fibras naturais. Algumas opções: água com alto teor de minerais, 2–3 kiwis ao dia, pão de centeio no lugar do branco e ameixas.
2
Suplementação de fibras — Psyllium Quando a dieta habitual não é suficiente. O psyllium é a opção mais recomendada e comprovada: aumenta a frequência e amolece as fezes. Dose recomendada: 10g/dia por pelo menos 4 semanas, com hidratação adequada. Iniciar gradualmente para reduzir flatulência.
3
Laxativos osmóticos Polietilenoglicol (PEG) é a primeira linha farmacológica — seguro, eficaz e com ação comprovada a longo prazo (até 6 meses). A lactulose é alternativa, mas pode causar mais gases e distensão.
4
Laxativos estimulantes Bisacodil, picossulfato de sódio e sena estimulam contrações do cólon. Fortemente eficazes, mas recomendados preferencialmente a curto prazo (até 4 semanas) ou como terapia de resgate.
5
Medicações de segunda linha (sob prescrição) Para pacientes sem resposta aos laxantes convencionais: secretagogos intestinais (linaclotida, plecanatida — ainda não disponíveis no Brasil) ou procinéticos como a prucaloprida (Resolor®), sob avaliação e acompanhamento médico.
6
Biofeedback Indicado especialmente para pacientes com dissinergia evacuatória. Trata-se de uma terapia que reeducao a musculatura responsável pela evacuação, com excelente resposta em casos selecionados.
Laxativos são seguros? Quando utilizados corretamente e sob orientação médica, muitos laxantes são seguros. O uso inadequado ou prolongado sem acompanhamento pode mascarar doenças ou dificultar a identificação da causa real da constipação. Por isso, a automedicação não é recomendada.

Dúvidas frequentes

Perguntas sobre constipação intestinal

Constipação tem cura? +

Na maioria dos casos, sim — especialmente quando a causa é identificada e tratada. Constipação por uso de medicamentos costuma resolver com a suspensão ou substituição do remédio. A constipação funcional responde bem a mudanças de estilo de vida, fibras e, quando necessário, medicamentos. Casos de dissinergia evacuatória podem ter excelente resultado com biofeedback. O acompanhamento com um gastroenterologista é fundamental para encontrar a melhor abordagem para cada caso.

Posso usar laxantes por muito tempo? +

Depende do tipo de laxante. O polietilenoglicol (PEG) tem segurança comprovada por até 6 meses de uso contínuo. Laxativos estimulantes como bisacodil e picossulfato de sódio são mais indicados a curto prazo ou como resgate. O ideal é sempre usar laxantes sob orientação médica, que irá indicar o tipo, a dose e o tempo adequados para o seu caso.

Prisão de ventre pode ser sinal de câncer? +

Na grande maioria dos casos, a constipação é funcional e não tem relação com câncer. Porém, a mudança repentina do hábito intestinal, especialmente em pessoas acima de 50 anos, associada a sangramento nas fezes, perda de peso ou anemia, merece investigação cuidadosa — incluindo colonoscopia — para descartar causas orgânicas como tumores. A avaliação médica é o caminho correto para determinar a necessidade de exames.

Constipação crônica causa hemorroidas ou fissuras? +

Sim. O esforço repetido para evacuar e as fezes endurecidas podem lesionar a região anal, favorecendo o surgimento de hemorroidas e fissuras anais. Por isso, tratar a constipação adequadamente é importante não apenas para o conforto intestinal, mas também para prevenir complicações anorretais.

Evacuações diárias são obrigatórias? +

Não. A frequência normal de evacuações varia de 3 vezes ao dia a 3 vezes por semana — e ambos os extremos podem ser completamente normais para uma pessoa saudável. O que importa não é apenas a frequência, mas também a facilidade de evacuar, a consistência das fezes e a ausência de sintomas como dor, esforço excessivo ou sensação de evacuação incompleta.

Fibras ajudam mesmo? Quantas preciso consumir? +

Sim, especialmente as fibras solúveis (como o psyllium) têm forte evidência para melhorar a constipação funcional. A recomendação geral é de 25–30g de fibras por dia para adultos, vindas de frutas, legumes, verduras e cereais integrais. Quando a dieta não é suficiente, a suplementação com psyllium (10g/dia) é a opção mais recomendada — mas é fundamental aumentar também a ingestão de água, pois fibras sem hidratação adequada podem piorar o quadro.

O que é dissinergia evacuatória? +

É uma condição em que os músculos do assoalho pélvico não relaxam corretamente durante a tentativa de evacuar — ao contrário do que deveriam fazer, eles se contraem, criando uma espécie de "obstrução funcional". É uma causa importante de constipação crônica, especialmente quando há esforço intenso, sensação de bloqueio e evacuação incompleta mesmo com fezes de consistência normal. O diagnóstico é feito por manometria anorretal e o tratamento de escolha é o biofeedback.

Quando devo procurar um gastroenterologista para constipação? +

Procure avaliação especializada se apresentar constipação persistente, falha de medidas simples como dieta e hidratação, dependência frequente de laxantes, dor abdominal importante, sangramento nas fezes ou sensação constante de evacuação incompleta. A investigação adequada permite identificar a causa e definir o tratamento mais eficaz para o seu caso.

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